A lipoaspiração é hoje a intervenção mais eficaz no controle do lipedema — uma doença crônica do tecido adiposo que afeta principalmente mulheres, causando dor, edema e prejuízo funcional. Mas, como toda cirurgia, ela tem complicações. Nosso estudo, publicado em Aesthetic Plastic Surgery (Springer / ISAPS, 2026), analisou 93 pacientes operadas pela nossa equipe entre 2019 e 2024 para entender quem realmente tem risco de desenvolver seroma pós-operatório.

O que é o seroma — e por que importa
O seroma é um acúmulo de líquido seroso nos espaços teciduais após cirurgia. No lipedema, ele não costuma colocar a vida em risco, mas pode atrasar a recuperação, exigir punções e impactar o resultado final. Identificar quais pacientes têm maior risco é essencial para planejar melhor cada cirurgia.
Como o estudo foi feito
- Estudo observacional retrospectivo, unicêntrico
- 93 pacientes mulheres com lipedema, operadas entre abril/2019 e janeiro/2024
- Aprovação ética: CAAE 86155524.0.0000.5455
- Variáveis analisadas: idade, IMC, estágio clínico, tipo de anestesia, volume aspirado, % do peso corporal removido, tecnologias adjuvantes (ultrassom, laser, radiofrequência) e procedimentos associados
- Desfecho primário: ocorrência de seroma pós-operatório
O que encontramos
Das 93 pacientes, 17 (18,3%) desenvolveram seroma. Houve 1 infecção e 1 hematoma, cada evento correspondendo a 1,07% da amostra. Não foram observados eventos adversos maiores como trombose venosa profunda, embolia pulmonar, necrose tecidual ou anemia grave.
Três fatores de risco independentes para seroma
A análise de regressão logística multivariada identificou três preditores independentes:
- Volume aspirado relativo ao peso corporal — cada 1% a mais aumentou as chances de seroma em ~1,6x (OR 1,58; IC95% 1,02–2,43; p = 0,040)
- Procedimentos menores associados — pacientes com cirurgia concomitante tiveram risco quase 7x maior (OR 6,77; IC95% 1,70–26,97; p = 0,007)
- Estágio clínico do lipedema — risco 3,57x maior por estágio (IC95% 1,22–10,46; p = 0,021)
IMC, idade, tipo de anestesia e número de sessões cirúrgicas não foram preditores significativos. A associação com estágio clínico deve ser interpretada com cautela: havia poucos casos nos estágios extremos e possível sobreposição entre estágios II e III, de modo que os próprios autores classificam esse achado como exploratório.
Nenhuma paciente operada com lipoaspiração assistida por ultrassom desenvolveu seroma — ainda que essa diferença não tenha atingido significância estatística e deva ser tratada como hipótese a ser confirmada.
Ultrassom: um sinal promissor
Das 14 pacientes tratadas com lipoaspiração ultrassônica (Lipossound), zero apresentaram seroma, contra 17 de 76 (18,4%) no grupo sem ultrassom (p = 0,065). O subgrupo é pequeno e o achado é exploratório, mas é consistente com a literatura que sugere que o ultrassom promove emulsificação uniforme, melhora a retração tecidual e pode preservar melhor as estruturas linfáticas.
O que isso muda na prática
- Planejar o volume relativo ao peso corporal com cuidado:o risco de seroma aumentou à medida que cresceu a porcentagem do peso corporal aspirada; no modelo multivariado, cada 1% adicional esteve associado a OR 1,58 (IC95% 1,02–2,43; p = 0,040). O estudo não estabelece um ponto de corte universal de 7%
- Pesar bem cirurgias associadas: mesmo procedimentos menores, somados à lipo de lipedema, multiplicam o risco
- Considerar tecnologias adjuvantes: o ultrassom mostrou um sinal protetor que reforça nossa prática de usá-lo em casos selecionados
- Manter vigilância prolongada: a maioria dos seromas foi diagnosticada após a segunda semana. No estudo, todas as pacientes tiveram seguimento de pelo menos um mês, e o uso sistemático de ultrassom no acompanhamento pode ter aumentado a detecção de seromas
Conclusão
A lipoaspiração para lipedema continua sendo segura e eficaz, com taxa muito baixa de complicações graves. O seroma é a complicação mais frequente e está ligado, principalmente, ao volume aspirado, à presença de cirurgias associadas e ao estágio clínico da doença. Esses achados nos ajudam a individualizar cada plano cirúrgico — e apontam o ultrassom como uma tecnologia que merece estudos prospectivos dedicados.
Como citar
Amato FCM, Amato LGL, Amato ACM, Benitti DA. Postoperative Seroma in Lipedema Surgery: A Retrospective Analysis of 93 Cases from a Single Surgical Team. Aesthetic Plastic Surgery. 2026;50(13):5164–5170. DOI: 10.1007/s00266-026-05774-7. PMID: 42082660.