
A reconstrução mamária faz parte do tratamento do câncer de mama e é um direito garantido por lei às mulheres submetidas à mastectomia. Apesar disso, o procedimento ainda está longe de ser uma realidade para a maioria das pacientes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entre 2014 e 2024, apenas 17% das mulheres que retiraram a mama após o câncer conseguiram realizar a reconstrução na rede pública, segundo dados do Datasus.
Em matéria publicada no Terra Vida e Estilo em 9 de agosto de 2026, o cirurgião plástico Dr. Fernando Amato explica que o principal desafio não está na lei, mas na estrutura do sistema de saúde. "Não é a criação de uma lei que resolve o problema. O SUS já trabalha sobrecarregado e, muitas vezes, a reconstrução acaba ficando em segundo plano porque ainda existe o preconceito de que se trata de uma cirurgia estética, quando, na verdade, ela faz parte da recuperação da paciente", afirma.
Por que a reconstrução mamária não é só estética
Reduzir a reconstrução mamária a uma questão estética ignora impactos importantes na saúde física e emocional das mulheres. Além da perda da mama, muitas pacientes convivem com assimetrias que podem provocar dores na coluna, alterações posturais e limitação de movimentos, especialmente quando apenas uma das mamas é retirada. O procedimento também ajuda a minimizar o impacto psicológico da mastectomia, que pode afetar autoestima e qualidade de vida.
Gargalos do acesso pelo SUS
Entre os principais obstáculos para ampliar o acesso, o Dr. Amato aponta:
- Falta de equipes especializadas em reconstrução mamária;
- Remuneração insuficiente para os procedimentos;
- Escassez de materiais e próteses adequadas;
- Dificuldades de gestão e organização da rede de atendimento;
- Desigualdades regionais, com concentração de serviços em grandes centros.
Como consequência, pacientes acabam sendo encaminhadas para hospitais de referência em grandes cidades, sobrecarregando ainda mais o sistema e prolongando filas que, em alguns casos, chegam a durar anos.
Projeto Mama Minha: uma resposta prática
Para mudar esse cenário, o Dr. Fernando Amato criou o Projeto Mama Minha, iniciativa que reúne recursos públicos e privados para ampliar o número de reconstruções realizadas pelo SUS. Desde sua criação, o projeto já ultrapassou a marca de 150 cirurgias em mulheres que aguardavam atendimento na rede pública.
A experiência mostrou que pequenas mudanças na organização do atendimento podem gerar resultados expressivos. A iniciativa garantiu recursos para aquisição de implantes mais adequados, abriu espaço para cirurgias extras no Hospital São Paulo e investiu no acompanhamento individualizado das pacientes, com orientação sobre as diferentes opções de reconstrução e planejamento do tratamento.
"O diálogo faz diferença. Muitas pacientes chegam acreditando que só existe uma técnica ou que obrigatoriamente precisarão de próteses. Quando recebem informação adequada, conseguem participar da decisão e, muitas vezes, optam por alternativas igualmente eficazes, o que melhora o resultado e evita desperdício de materiais", explica o Dr. Amato.
Formação de novos profissionais
Além de beneficiar as pacientes, o projeto também contribuiu para a formação de novos profissionais. Residentes acompanharam os procedimentos e passaram por treinamento específico em reconstrução mamária — modelo que, na avaliação do cirurgião, poderia ser replicado em outras regiões do país para ampliar a oferta do procedimento.
Perguntas frequentes
- A reconstrução mamária após câncer é um direito garantido por lei?
- Sim. Desde 2013, a Lei 12.802 determina que a reconstrução mamária seja oferecida no SUS, de preferência no mesmo ato da mastectomia, sempre que as condições clínicas forem favoráveis. Trata-se de parte do tratamento do câncer de mama, não de um procedimento estético opcional.
- Por que apenas 17% das mulheres conseguem a reconstrução pelo SUS?
- Segundo dados do Datasus entre 2014 e 2024, o principal gargalo não é a legislação, mas a estrutura do sistema de saúde: falta de equipes especializadas, remuneração insuficiente, escassez de materiais e dificuldades de gestão. Muitos hospitais acabam priorizando o tratamento oncológico e deixando a reconstrução em segundo plano.
- O que é o Projeto Mama Minha?
- É uma iniciativa do cirurgião plástico Dr. Fernando Amato que une recursos públicos e privados para acelerar a reconstrução mamária de mulheres que aguardavam na fila do SUS. Desde sua criação, já ultrapassou a marca de 150 cirurgias realizadas.
- Quem pode participar do Projeto Mama Minha?
- Mulheres que passaram por mastectomia ou tratamento de câncer de mama pelo SUS e aguardam na fila por procedimentos reparadores. O fluxo depende da regulação e do acompanhamento médico prévio dentro da rede pública de saúde e do sistema integrado ao Hospital São Paulo.
- A reconstrução imediata é sempre a melhor opção?
- Nem sempre. Apesar de prevista em lei, a reconstrução imediata pode não ser adequada quando a paciente ainda precisa concluir quimioterapia, radioterapia ou quando é necessário confirmar a remoção completa da lesão. Nesses casos, a reconstrução tardia pode ser mais segura.
- A reconstrução mamária traz benefícios além da estética?
- Sim. Além do impacto psicológico e da autoestima, a reconstrução ajuda a corrigir assimetrias que podem provocar dores na coluna, alterações posturais e limitação de movimentos, especialmente quando apenas uma das mamas é retirada.
Leia a matéria completa
A reportagem original, assinada por Marcela Ferreira, foi publicada no Terra Vida e Estilo e traz mais detalhes sobre os dados do Datasus, a Lei 12.802/2013 e o trabalho do Projeto Mama Minha.
Fernando C. M. Amato (CRM-SP 133826) é médico com mestrado pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP). Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, membro da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) e da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS). Conteúdo educativo — não substitui avaliação médica presencial.