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Classificação das deformidades abdominais: como escolher a cirurgia adequada?

Nem todo abdome precisa do mesmo procedimento. Conheça as classificações utilizadas para avaliar gordura, flacidez de pele e alterações da musculatura abdominal.

FADr. Fernando Amato 28 de outubro de 2026 4 min de leitura
Classificação das deformidades abdominais: como escolher a cirurgia adequada?

Classificação das deformidades abdominais e opções cirúrgicas

Por que existem diferentes tipos de cirurgia abdominal?

A cirurgia do contorno abdominal deve considerar, em conjunto, três componentes: pele, gordura subcutânea e parede músculo-aponeurótica. A avaliação de cada um permite selecionar uma técnica proporcional à deformidade, às condições clínicas e aos objetivos individuais. Nem todo excesso de volume abdominal é tratado com a mesma cirurgia.

Classificação de Nahas: pele e tecido subcutâneo

Nahas propôs uma classificação para organizar o excesso cutâneo e subcutâneo:

  • Tipo 0: predomínio de gordura localizada, sem sobra significativa de pele. Em pacientes selecionados, pode ser indicada lipoaspiração.
  • Tipo I: excesso cutâneo pequeno, com umbigo relativamente alto. Técnicas de ressecção limitada e ajuste umbilical podem ser consideradas.
  • Tipo II: excesso de pele leve a moderado, com distribuição que exige adaptação da ressecção e do descolamento. A escolha depende da mobilidade e vascularização do retalho.
  • Tipo III: excesso importante de pele, com indicação frequente de abdominoplastia completa quando as condições clínicas permitem.

Essa classificação não determina automaticamente a operação: elasticidade, distribuição da flacidez, cicatrizes e expectativas também influenciam o planejamento.

Classificação muscular de Nahas

O mesmo autor descreveu quatro padrões de alterações músculo-aponeuróticas, isto é, dos músculos abdominais e de suas estruturas fibrosas de sustentação.

Tipo A — Diástase dos músculos retos

A diástase é o alargamento da linha alba com afastamento dos músculos retos, frequentemente associado à gestação. Em situações selecionadas, pode ser abordada com plicatura: suturas que aproximam a bainha muscular.

Tipo B — Frouxidão adicional lateral e inferior

Além do afastamento central, pode existir frouxidão em regiões laterais ou infraumbilicais. A correção pode demandar reforço de estruturas aponeuróticas além da linha média.

Tipo C — Inserção lateralizada dos músculos retos

Uma disposição anatômica diferente das inserções superiores pode tornar a aproximação central convencional insuficiente. Técnicas especializadas de avanço muscular foram descritas para casos específicos.

Tipo D — Alterações do contorno da cintura

Alterações musculares e aponeuróticas podem contribuir para a perda de definição da cintura. Técnicas de mobilização e reforço da musculatura lateral foram descritas, mas não constituem conduta obrigatória.

Matarasso: avaliação integrada

A classificação de Matarasso relaciona pele, gordura e parede muscular, orientando procedimentos progressivamente mais extensos.

Tipo Características predominantes Possível abordagem
I Flacidez cutânea e muscular mínimas Lipoaspiração
II Flacidez leve, principalmente inferior Miniabdominoplastia
III Flacidez moderada e alterações musculares mais extensas Abdominoplastia modificada
IV Flacidez e deformidade musculares acentuadas Abdominoplastia completa, associada ou não à lipoaspiração

Essas associações são orientações, e não prescrições universais.

Bozola e Psillakis: contribuição brasileira

Em 1988, Bozola e Psillakis sistematizaram a avaliação das deformidades abdominais em cinco grupos, considerando pele, gordura e musculatura. O princípio central é corrigir as estruturas efetivamente alteradas, sem ampliar desnecessariamente o procedimento.

Caldeira e a midiabdominoplastia

Técnicas intermediárias, como a midiabdominoplastia, foram propostas para padrões específicos de flacidez e para melhorar o planejamento da cicatriz. Elas podem ser úteis quando uma miniabdominoplastia seria insuficiente, mas a distribuição da pele excedente não exige a mesma estratégia de uma abdominoplastia convencional.

Diástase não é sinônimo de hérnia

Diástase abdominal corresponde ao alargamento da linha alba e afastamento dos retos, sem necessariamente haver um orifício na parede abdominal. Hérnia envolve defeito da parede pelo qual tecidos podem protruir.

A European Hernia Society define diástase como afastamento dos retos superior a 2 cm, mas a medida isolada não constitui indicação automática de cirurgia. Sintomas, repercussão funcional, presença de hérnia associada e possibilidades de tratamento conservador devem ser avaliados. Ultrassonografia e, em situações específicas, tomografia podem auxiliar.

Como escolher a técnica?

Lipoaspiração: pode ser considerada quando predomina gordura localizada e a pele tem elasticidade suficiente para acomodar a redução de volume. Não corrige diástase e não remove excesso importante de pele.

Miniabdominoplastia: considerada quando o excesso cutâneo é mais localizado, habitualmente abaixo do umbigo, com possibilidade de ressecção limitada.

Abdominoplastia completa: considerada na flacidez mais extensa, frequentemente com necessidade de reposicionamento do umbigo e eventual correção da parede muscular.

Técnicas modificadas: podem ser necessárias em pacientes com distribuição incomum de flacidez, cicatrizes prévias ou deformidades musculares particulares.

Não existe uma medida fixa de ressecção de pele ou um índice de massa corporal que, isoladamente, defina a técnica para todos os pacientes.

Segurança e limitações

O planejamento pré-operatório deve incluir avaliação de saúde geral, estabilidade ponderal, tabagismo, doenças associadas, cirurgias anteriores e risco tromboembólico. Cicatrizes prévias podem modificar a vascularização dos retalhos e exigir adaptações técnicas.

Os riscos incluem seroma (acúmulo de líquido), hematoma, infecção, problemas de cicatrização, alterações de sensibilidade, sofrimento vascular da pele e tromboembolismo. A associação com lipoaspiração exige atenção à extensão do procedimento e à preservação vascular. Cirurgia do contorno corporal não substitui tratamento da obesidade.

Conclusão

As classificações de Nahas, Matarasso e Bozola e Psillakis ajudam a compreender padrões distintos de deformidade abdominal. Não há uma classificação única que determine a melhor cirurgia. O objetivo é combinar avaliação da pele, gordura, anatomia muscular e fatores de risco para um planejamento individualizado, seguro e realista.

Referências

  1. Bozola AR, Psillakis JM. Abdominoplasty: a new concept and classification for treatment. Plastic and Reconstructive Surgery. 1988;82(6):983–993.
  2. Matarasso A. Abdominolipoplasty: a system of classification and treatment for combined abdominoplasty and suction-assisted lipectomy. Aesthetic Plastic Surgery. 1991;15(2):111–121. https://doi.org/10.1007/BF02273843
  3. Nahas FX. A pragmatic way to treat abdominal deformities based on skin and subcutaneous excess. Aesthetic Plastic Surgery. 2001;25(5):365–371.
  4. Nahas FX. An aesthetic classification of the abdomen based on the myoaponeurotic layer. Plastic and Reconstructive Surgery. 2001;108(6):1787–1795.
  5. Hernández-Granados P, et al. European Hernia Society guidelines on management of rectus diastasis. British Journal of Surgery. 2021;108(10):1189–1191. https://doi.org/10.1093/bjs/znab128

Dr. Fernando Amato
Cirurgião Plástico — CRM-SP 133826 | RQE 51573 e RQE 51436
https://plastico.pro

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial (imagem a ser inserida manualmente antes da publicação).

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