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Simastia: o que é, causas e tratamento com telas

Simastia: entenda o que é, por que acontece após implantes e quando a correção pode incluir suturas, troca de bolso e telas.

FADr. Fernando AmatoCRM-SP 133826 10 de julho de 2026 10 min de leitura Revisado por médico
Ilustração esquemática da simastia mostrando perda do sulco intermamário
Simastia: perda do sulco intermamário, geralmente após aumento mamário ou reconstrução com implantes.

A simastia é uma deformidade em que se perde o sulco intermamário, isto é, a separação natural entre as mamas sobre o esterno. Ela pode ser congênita, mas é mais frequentemente adquirida depois de aumento mamário ou reconstrução com implantes. Em termos simples, as mamas passam a confluir medialmente, como se o espaço central tivesse sido “apagado”.

Isso é diferente de ter mamas naturalmente mais próximas. Na simastia verdadeira, há falha das aderências e do suporte na região esternal, muitas vezes com comunicação excessiva ou descontrole dos bolsos dos implantes na linha média. Essa diferença importa porque o problema costuma exigir correção estrutural, e não apenas mudança de sutiã, massagem ou observação.

Causas da simastia

Na forma adquirida, as causas mais descritas incluem descolamento excessivo da porção medial do bolso do implante, rompimento da fáscia esternal, desinserção das fibras esternais do músculo peitoral maior, escolha de implantes com base muito larga para o tórax e forças exercidas sobre implantes posicionados no plano subpeitoral. Em uma série retrospectiva com 23 pacientes, todas tinham antecedente de aumento subpeitoral, e a explicação mais apontada foi o excesso de descolamento medial das inserções do peitoral junto ao esterno.

Além disso, complicações do pós-operatório podem favorecer o quadro ou sua recorrência. Seroma, hematoma, infecção e aumento de pressão no bolso do implante podem romper aderências mediais e facilitar a migração dos implantes para o centro do tórax. Alguns autores também destacam que volumes excessivos e posicionamento muito próximo da linha média aumentam o risco.

A forma congênita é rara e tem mecanismo diferente. Nela, o problema decorre de uma alteração anatômica presente desde o desenvolvimento das mamas, e os relatos cirúrgicos costumam combinar lipoaspiração da região pré-esternal, fixação da pele à parede torácica e compressão pós-operatória.

Como a simastia aparece na prática

O sinal principal é a perda do sulco intermamário. A paciente percebe que o decote fica mal definido, há abaulamento central sobre o esterno e as mamas parecem “invadir” o espaço entre elas. Em casos mais evidentes, a deformidade pode ser visível mesmo em repouso; em casos mais sutis, ela fica mais clara quando se faz pressão medial ou certos movimentos dos braços e do tórax.

Na avaliação, o cirurgião não olha apenas o formato externo. Ele precisa entender o plano do implante, a qualidade dos tecidos, a largura da base do implante, a presença de cápsula frouxa ou deformada e se existe alguma complicação associada, como seroma, infecção, ruptura ou necessidade de revisão mais ampla.

Simastia tem tratamento sem cirurgia?

Quando a simastia já está estabelecida, a literatura publicada é predominantemente cirúrgica. Compressão, faixas e cuidados pós-operatórios aparecem mais como medidas adjuvantes para proteger a correção do que como tratamento definitivo de uma deformidade já formada. Em outras palavras, quanto mais estruturado o problema, menor a chance de resolvê-lo apenas com medidas externas. Essa é uma inferência baseada no fato de que as principais revisões e séries de casos descrevem técnicas operatórias, e não um tratamento conservador padronizado.

Como é a cirurgia de correção

O objetivo da correção é recriar o sulco intermamário e restabelecer a separação adequada entre as duas mamas. Uma revisão sistemática publicada no JPRAS identificou quatro grandes grupos de técnicas: adesões dermoesternais, capsulorrafia, criação de novo bolso e reparo muscular. Em linguagem prática, isso significa que o cirurgião pode refazer o suporte central, fechar o excesso de bolso medial, mudar o plano do implante e reparar estruturas musculares ou fasciais quando necessário.

Dependendo do caso, pode ser preciso retirar temporariamente o implante, trocar o plano cirúrgico, escolher um implante de base mais adequada ou até associar outras manobras de revisão mamária. Em uma série brasileira, suturas de adesão entre as camadas capsulares junto à fáscia esternal foram usadas para redefinir o sulco; em outra linha de tratamento, autores defendem reancorar a fáscia de Scarpa ao esterno, reparar o peitoral maior e evitar repetir um novo implante subpeitoral quando essa configuração foi a principal causa do problema.

É importante ter expectativa realista. Na revisão sistemática, 23 artigos e 118 pacientes foram incluídos; a correção foi considerada satisfatória na maioria, mas a recorrência foi a complicação mais frequente, ocorrendo em 8,5% dos casos. Os próprios autores ressaltam que ainda não existe prova robusta de que uma técnica seja universalmente superior às demais.

Tratamento da simastia com telas

Quando se fala em “telas” na cirurgia mamária, o termo costuma se referir a materiais usados como reforço interno. Eles podem ser matrizes dérmicas acelulares, enxertos biológicos, slings de aloenxerto ou xenoenxerto e, em alguns contextos, suportes biossintéticos absorvíveis, como os de poli-4-hidroxibutirato, conhecido como P4HB. A ideia não é “colar” as mamas por fora, mas reforçar por dentro a área reparada, distribuindo melhor a tensão e oferecendo suporte adicional aos tecidos.

Na prática, a tela pode ser considerada quando a correção simples parece frágil demais. Isso costuma acontecer em recidivas, em pacientes com tecidos muito finos, após múltiplas cirurgias, em reconstruções mamárias complexas ou quando a cápsula existente não oferece suporte suficiente. Há relatos de uso de AlloDerm em forma de sling para correção de symmastia em reconstrução mamária e de xenoenxerto porcino associado à capsulorrafia em revisões complexas, sempre com a lógica de reforçar a reparação medial.

Também já existe literatura mais ampla sobre telas absorvíveis em cirurgia mamária, embora não exclusivamente em simastia. Em uma revisão sistemática de 2025 sobre P4HB em cirurgia de mama, 16 estudos foram incluídos, com uso em procedimentos estéticos e reconstrutivos. Entre as indicações revisadas estavam defeitos secundários e revisões por malposição do implante, incluindo simastia e rotação; de modo geral, os estudos relataram boa incorporação e baixas taxas de complicações, mas ainda faltam ensaios maiores e comparações diretas entre materiais.

O ponto mais importante é este: tela não é sinônimo de melhor resultado para toda paciente. A mesma revisão destaca que não há consenso nem recomendação baseada em evidência forte apontando um material ideal, e observa que o uso desses suportes em cirurgia mamária costuma ser off-label, isto é, fora de uma aprovação específica para essa finalidade. Portanto, a decisão deve ser individual, baseada na anatomia, no histórico cirúrgico e na estratégia do cirurgião para reduzir a chance de nova falha medial.

Também é preciso pesar limitações. O uso de telas acrescenta custo, aumenta a complexidade da revisão e introduz mais material na área operada. Embora a literatura geral com P4HB descreva baixas complicações em muitas indicações, um estudo retrospectivo citado na revisão encontrou maior taxa de contratura capsular com sling de P4HB em um cenário de reconstrução em dois tempos. Isso não invalida o recurso, mas reforça que tela é ferramenta de seleção criteriosa, não solução automática.

Para quem já passou por prótese e precisa de revisão, a correção pode exigir ajustes de mamoplastia ou associação com mastopexia. Um bom pré-operatório e a conversa sobre anestesia ajudam a alinhar riscos, possibilidade de nova revisão e o que esperar do pós-operatório.

Conclusão

A simastia é uma deformidade de posição e suporte das mamas, e não apenas uma questão estética leve. Na forma adquirida, ela está ligada principalmente a problemas no bolso do implante e na sustentação medial, muitas vezes após aumento mamário ou reconstrução. O tratamento costuma ser cirúrgico e precisa ser desenhado conforme a causa de base.

O uso de telas pode ter papel importante em casos selecionados, sobretudo quando há recidiva, tecidos frágeis ou necessidade de reforço adicional da correção. Ainda assim, a literatura disponível é composta principalmente por séries de casos e revisões de baixo nível de evidência, sem comprovar uma solução única para todos os cenários. Por isso, a avaliação individual com cirurgião plástico é indispensável para decidir se basta uma capsulorrafia, se é preciso mudar o plano do implante ou se vale incluir um reforço com tela.

Perguntas frequentes

Simastia é a mesma coisa que ter as mamas mais próximas?
Não. Mamas naturalmente próximas podem ter pouco espaço entre si sem perda do sulco intermamário. Na simastia, existe confluência medial e apagamento do sulco, o que caracteriza uma deformidade anatômica verdadeira.
Simastia pode acontecer sem prótese?
Sim. Existe a forma congênita, que é rara, e há também casos após reconstrução mamária com implantes. Ainda assim, na prática publicada, a forma adquirida após cirurgia com implantes é a mais frequente.
Toda simastia precisa trocar a prótese?
Não necessariamente. Em alguns casos, o implante pode ser mantido, mas o bolso precisa ser corrigido e reforçado. Em outros, faz sentido trocar o tamanho, a base, o plano do implante ou até fazer a substituição em outro momento, de acordo com a causa do problema.
Quando a tela costuma entrar na correção?
Em geral, quando o cirurgião entende que suturas isoladas podem não ser suficientes para sustentar a revisão. Isso ocorre mais em recidivas, tecidos finos, múltiplas cirurgias prévias e revisões complexas, nas quais o reforço interno pode ajudar a proteger a reparação medial.
A correção da simastia pode voltar?
Pode. A recorrência é uma preocupação real nessa deformidade, e uma revisão sistemática encontrou recorrência global de 8,5% como complicação mais frequente. Isso ajuda a entender por que o planejamento cirúrgico é tão individualizado e por que, às vezes, mais de uma manobra é combinada na mesma operação.
Tela é sempre permanente?
Não. Depende do material. Algumas matrizes e enxertos têm comportamento biológico diferente, e suportes biossintéticos como o P4HB são desenhados para reabsorção progressiva, com integração tecidual ao longo do tempo.
Como saber se, além da simastia, existe ruptura ou outra complicação do implante?
Isso exige avaliação médica. Sociedades como a ASPS destacam a importância de exames regulares e lembram a recomendação do FDA de rastreamento por ultrassom ou ressonância após implantes de silicone, porque outras complicações, como ruptura ou seroma, podem coexistir e mudar o planejamento da revisão.

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Fernando C. M. Amato (CRM-SP 133826 / RQE 34490) é cirurgião plástico formado pela Unifesp, Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Conteúdo educativo — não substitui avaliação médica presencial.

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